Alisamento capilar e racismo

Nós vivemos num país de maioria preta e parda. E mesmo assim desde criança, principalmente nós mulheres somos induzidas a alisar os nossos cabelos. Já parou pra pensar nisso?

O racismo é tão cruel que fez e faz meninas com cabelos cacheados e crespos acreditarem que são feias. E que para se sentirem bonitas, para se enquadrarem em um padrão de beleza, europeu/caucasiano (ou seja, um padrão anos-luz, nada a ver com o brasileiro) tinham e têm que alisar seus cabelos.

Eu não lembro exatamente com quantos anos comecei a alisar os meus. Creio que tenha sido a partir dos 12 anos. Mas conheço meninas que alisam desde os 6, 7 anos de idade. Vejam só que absurdo: são apenas crianças, passando por um processo químico demorado, estressante e que pode trazer muitos males à sua saúde. Lembro-me que na época que eu era criança existiam alisantes destinados ao público infantil. Os produtos vinham com foto de crianças com cabelos alisados no rótulo. 

Existem mulheres que sequer lembram como é o seu cabelo natural, só passando a conhecê-lo durante o processo de transição. Meninas e mulheres sofrendo com cortes químicos a vida toda. Muitas chegam a adquirir doenças sérias no couro cabeludo, devido ao uso excessivo de químicas.

Tudo isso para não ter que sofrer mais bullying, não ter que ouvir que seu cabelo é ruim, que é de bombril, que é muito “armado”, volumoso, etc. O pior é que a gente cresce achando que esse processo é meramente por pura estética. É que o racismo se infiltra nas “sutilezas”. Ele nos faz acreditar que o cabelo alisado facilita o nosso dia-a-dia. Afinal, cabelo liso é mais prático de lidar.

Mentira! Pra estar lisinho a gente passa um tempão sendo escravizadas pelo secador e chapinha. O racismo, então, acaba minando nossa autoestima. Ainda que não percebamos, ele mina a autoestima preta e parda. Tudo que diz respeito ao povo preto teve que ser combatido, diminuído, subestimado e com relação à beleza não poderia ser diferente. Se não deu para mudar a cor da nossa pele, então, outras características teriam que ser mudadas. E adivinha qual a mais marcante e representativa, além da cor? O cabelo.

Calma! Não estou criticando as mulheres que alisam o cabelo, afinal de contas, alisava o meu até pouco tempo atrás. Tampouco concordo com afirmações do tipo: “preta que alisa o cabelo tá desmerecendo sua raça”; Acho isso uma grande bobagem e acho um grande equívoco combater a ditadura do liso impondo uma ditadura do cabelo natural. 

O que estou tentando expressar aqui é a ideia de que seja lá como lidamos com o nosso cabelo, com a nossa beleza, que possamos nos sentir livres para isso. Se eu alisar, que seja porque eu quero e não por uma pressão racista. Não há problema algum em ser alisada, mas também, DEFINITIVAMENTE, não há problema algum com nosso cabelo natural, volumoso, crespo. O nosso cabelo não é ruim. Ruim é o racismo.

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